quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

ReCantos Sombrios



Aquela Cena era o materializar de uma Fantasia, mas a corda enterrava-se nos seus punhos com a pertinência da Realidade. A cave por estrear na nova casa, providenciava uma câmara de ecos para uma tertúlia física, na qual Ela pretendia desvendar mais alguns dos meus Recantos Sombrios. Claro que providenciaria algumas revelações… através de sussurros no seu ouvido enquanto a fodia… onde o poder de cada estocada fincava ainda mais a ânsia que Ela tinha pela Cena. A revelação alojou-se na sua mente, embrulhando-se com as suas próprias fantasias. E naquele instante, a corda simbolizava a purgação de semanas de expectativa. Abandonei-a lá em baixo, privada das suas vestes e devidamente amarrada. Não deixei quaisquer instruções, apenas lhe assegurei que sobreviveria… e que eventualmente, ou melhor, afortunadamente teria uma epifania.

Quando desci, parecia trajado para um evento. Afinal de contas, sob o escrutínio de qualquer Mulher que se preze, um bom fato representa aquilo que uma boa lingerie representa para um Homem. Vestia ainda um sorriso viajante… que lhe comunicava com eloquência como a minha imaginação carburava a todo o vapor. Ela detestava aquele Sorriso. Ela amava aquele Sorriso. Contorceu-se na corda e fitou as minhas mãos.

«Isto não será como Tu pensas que seria.»

Foi assim que comecei. Com esta trapalhada gramatical propositada. Circundava-A como um predador se movimenta numa jaula… só que Ela também se encontrava na jaula comigo. Talvez se sentisse como alguma espécie de sacrifício, todavia desconhecia qual seria a parte que eu buscava nEla. Qual seria a parte que Ela teria de ceder… e perder.

«Não Te irei bater. Não Te irei açoitar.», deslizava a minha mão pela sua coxa, «Não Te irei quebrar.»

Ela nada replicava… além de um vocabulário reduzido a vogais e “m’s”…

«Em vez disso, irei saborear-Te. Lentamente…», as palavras escorregaram para longe, assim como as minhas mãos… e o instinto dela foi seguir-me com as suas ancas… como se suplicasse por mais um pouco daquele toque.

«E mesmo assim, quando terminar, apenas restará de Ti uma pilha de catarse…»

Esta não era claramente a minha Fantasia retorcida. Aquela que lhe havia sussurrado. Era algo totalmente diferente, mas o impacto da surpresa surtiu de forma igualmente avassaladora. Ela pretendia ser emboscada, mas havia considerado outra forma de embuste… pois não sabia, nem estava preparada para lidar com este…

«Por fav…», tentou formar uma derradeira súplica, para que me tornasse no sádico que ela poderia entender… ao invés do charmoso maquiavélico que lhe parecia bem mais perigoso. Mas estanquei-lhe a prece com borracha… forçando a mordaça entre os seus lábios.

«Estala os Teus dedos se desejares que pare.»

Sussurrei no seu ouvido as minhas últimas palavras, antes de lhe trespassar com dois dedos famintos por mel entre as suas pernas, expelindo todo e qualquer resquício de pensamento que ainda deambulava pela sua mente… mesmo nos seus Recantos mais Sombrios.

Sem Meias Medidas


Foodie… do


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Chuva Convectiva



Cai uma chuva fria
E os sapatos enlameados
Ficam de sentinela à porta.

Os casacos pingam
Pendurados no cabide
E a chuva possui uma voz.

O telhado e as janelas
Entoam a sua linguagem
Enquanto despes as roupas ensopadas.

No canto do compartimento
Silêncio… sinto-me pó…
Ou uma teia de aranha.

Tácito… Encurralado
Até o olhar da Tua desatenção
Perpassar o meu.

Então despes-me
As roupas juntam-se no turno dos sapatos
E os corpos resvalam.

Um no outro
Como os casacos no cabide
E o nosso Amor é a chuva.

Essa chuva que declama
Nos murmúrios de mãos e lábios
Que chovem sobre Nós.

Everybody's Got a Thing


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Sufoco de Sófocles



Respira bem fundo. Por mais perverso e depravado que Te pareça, este é o Único Momento para expiares toda a tensão de uma Alma fodida por neuroses e inseguranças transportadas desde a infância, que a negação universal utiliza como amparo para a desintegração. Expira o Ar que sustiveste durante décadas, contendo-o de tal forma que gerou aquela dor tão profunda que marca o compasso da maioria dos mortais mecanizados por ambições fúteis. É uma purga… uma dor que varre uma dor supina… fragilizando-Te e regenerando-Te. Desnudada, mas jamais desamparada. Não Te acanhes. Não Te assustes. Sê corajosa, por um Momento. Deixa-me entrar. Pois uma vez aí dentro, poderás dispensar toda a coragem. Bastar-Te-á Ser… Existir… e sobretudo, através de Tudo, terás a catarse que Te apartará do mundano.

Sem Meias Medidas