sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A Insustentável Leveza da Sede



O Vampiro foi popularizado e no processo de vulgarização perdeu as presas… obliteraram-lhe cada centímetro funcional dos seus caninos. Ele rosnava sem rosnar, numa postura requintada que descrevia uma tangente sobre a ameaça, sobre o intento sinistro. Por muito que o Vampiro fosse definido pela avidez da sua sede e pelo silvo da luz solar, não eram essas características que o apartavam do cortejo de monstruosidades que marchavam pelos capítulos sombrios da literatura gótica… não para Ela. Era a excisão da sua Humanidade, contrastante com a necessidade impenitente da mesma. Era definido pela fome, mas depois esbofeteavam-lhe com a adenda da imortalidade. Não tinha escolha na matéria… assim como Ela. Ela não conseguia controlar os impulsos, as tendências, as vocações, os nervos e as ansiedades… e cada molécula do seu ser rugia por isto… por algo que muita gente observa, mas evita tentar compreender. Ela era perversa, e essa devassidão alienava-a da faixa humana.

De pé, acima dEla, esbofeteei-A. Ela ainda o conseguia sentir... o sangue na sua bochecha... e saboreou cada segundo. Sabia a Vida, aquele ardor esvaecido, um pedaço de mim concedido e concebido para Ela… e ninguém exterior àquele quarto tê-lo-ia entendido. Veriam a ação e tratariam de desprezar na melhor das hipóteses, ou julgar na pior das hipóteses. Ali, todo o resquício de intimidade foi sugado… ingurgitaram-se… e nenhum dos dois sobrou… nem para o observador casual. Era a tristeza que ela mais lamentava ter sumido do Vampiro hodierno. Tornou-se fixe, e dessa forma perdeu a Melancolia… de serem eternamente parte da Humanidade e de estarem eternamente aparte da Humanidade.