segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Rua de Passos Manuel 178, 4º Piso



Ela confessa
Detestar o sabor
Do Whisky
Excepto quando o prova
Na minha língua.
Desejo ser o Tal
Mas amar-me
Provoca uma ressaca
Dos diabos
E quero Tudo
Menos tornar-me um mau hábito
Do qual precisa
Recuperar.

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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O Sumo da Súmula



Quero roubar todo o ar que respiras. Torná-lo refém até despir todas as Tuas emoções, como tantas outras roupas que tombam pelo chão… envergonhadas, gastas e escusadas. Quero ver-Te sob os Teus alicerces, dissecar-Te para além das inseguranças e neuroses. Quero saber qual a cor que o desespero adquire em Ti.

Esta não será a descrição do Teu real desejo? O tal que cortejas… o tal pelo qual pestanejas… e que Te cobre pelas noites, quando esses dedos se ocultam entre as Tuas coxas na tentativa de germinar algo? Pois então, desmoronemos o teatro. Dispensemos a audiência. Expulsemos a orquestra. Desmantelemos o palco até restarmos apenas os dois e o chão de madeira como companhia. Quero ouvir-Te suplicar… sem gemidos ou suspiros entrecortados. Escutemos a Verdade! Dizes querer provar o néctar do medo, mas não creio que saibas realmente ao que aspiras. Escorre vontade na Tua dicção, como se cogitasses um arroubo de magia assente em entretenimento. Dizes querer ser subjugada… prostrada à minha mercê… mas não creio que tenhas consciência do impacto da realidade sobre a Tua fantasia.

Quero Metamorfose. Manifestada através Ti. Quero que saias diferente da forma com que Te apresentaste à chegada. Quero que leves algo conTigo. Quero que aprendas e apreendas… mas ainda não delineei o que desejo ensinar e entregar. Tu vês as ondas, mas eu atento naquilo que as forma… nas ideias que compõem uma na outra até se tornarem suficientemente densas para me engolires por inteiro… para Te revirar de dentro para fora… epitomando-Te a uma poça molhada no chão.

Sem Meias Medidas


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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Raio X



Raramente me sinto tão desarmado como nos momentos em que Te despes. Cada peça resvala das linhas do Teu corpo com a urgência de uma avalanche… e limito-me a olhar. Não se trata propriamente de impotência, mas de êxtase. Perlongo em assimilação e a minha mente formula numa janela de tempo que não me enquadra além da função de recetáculo. Olho, observo, disseco, contemplo. Sem ação!

Por muito paradoxal que possa soar, dominar não se resume a empossar. Isso seria apenas o brinquedo fastidioso de um ditador frívolo. Dominar é controlar a fluidez do Poder, direcioná-lo, permitir que respire como um bom vinho. É encarnar Tifão, estacado no centro de uma tempestade a controlar os relâmpagos. E sorrir! Sorrir ensandecido quando vislumbro a forma como essa pele absorve a luz. Pois apesar de me encontrar atado, reivindicarei cada parcela do Poder que repousa nessas mãos, quando sentires o peso invocatório da rendição, sob o jugo da dissimulada inação.

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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Terceira Lei de Newton



Havia sempre algo de insólito quando aquele arrepio elícito percorria a Tua espinha no instante em que os meus lábios tocavam nos Teus mamilos. Parecia que acendias e ascendias… provinda do meu antro, para Te posicionares num pedestal, enquanto orava pelas Tuas graças. Esta não era a ordem natural das coisas, nem a ordem natural da Tua consecução de prazer. A altura provocava-Te vertigens. Talvez tudo não passasse de um instinto biológico, da manifestação de um sonho molhado de Freud pelo frémito da comunicação entre nervos e cérebro. Uma faísca maternal, o sentimento de proteção e amor mesclado com excitação e luxúria. Parecia que a mente rodopiava em território temático forasteiro, que o discernimento se encontrava enevoado… mas o clima entre as Tuas coxas traduzia-se em orvalho.

Essa reação era a razão pela qual venerava serpentear nessa protuberância sensível. Pela qual me reclinava no sofá e bastava arquear uma sobrancelha para assimilares os meus intentos. Hesitavas apenas para tomar fôlego, despedias-Te do solo e presenteavas-Te de peito feito. Mamilo convertia-se em boca. Metamorfose que nunca Te apanhava desprevenida, pois era uma clara tradução corporal dos motivos pelos quais suplicavas e Te rendias. As perversões transformavam um riacho sereno de pensamento numa torrente de devassidão, onde soçobravam todas as palavras que proferia com a ajuda de uma língua liberal, até Te sentir melada numa cadência silábica.

Sem Meias Medidas


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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Volição



Quando se conheceram, ele lançou um gracejo sobre meias de rede. Uma qualquer sugestão subversiva culminada com um ponto de interrogação sobre a sua opinião pessoal. Ela não ostentava carisma de menina fanática por abluções, mas o tópico não recebeu a sua aprovação. Ela não apreciava o seu uso… pelo menos em público.

«Não sou uma puta!»

Eram apenas meias! E a conotação imediata sob o espectro de trabalhadora sexual recebeu dele uma tácita reprovação. O facto de alguém pavonear tal adereço pela rua jamais significaria apenas uma sinalização de meretrizes em busca de cifrões.
Dois meses passaram e o poder da influência que ele exercia sobre Ela era bem mais preponderante do que qualquer convicção direcionada sobre meias de rede. O jogo manipulativo representava uma saudável investida sobre as fundações do próprio desejo. Uma ressurreição de sensações e conceitos recalcados que representavam o corolário de um estado inebriado de paixão. As festas haviam sido cruciais na renovação da perspetiva. Eventos. Temáticas. O arraial familiar de corpetes, látex e Louboutins. Surgiram decotes mais pronunciados, fazendo jus a mamas que merecem ser matéria de epopeias. As meias surgiam devidamente acompanhadas com elaboradas cintas-liga, até que uma noite, ali estavam elas… nEla. Um treliçado que se ajustava às suas pernas com laivos de sensualidade. Linhas rendilhadas numa extravagância artística que desaparecia nos seus saltos e debaixo da sua saia. Ele estacou em contemplação, arqueou uma sobrancelha e inquiriu:

«Não eras Tu quem defendia que as meias de rede eram apetrechos de putas?»

A sua resposta foi lépida e assertiva:

«Eu sou a tua Puta!»

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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A Bruma Voraz



Bem depois
De Tudo
Algures no seio da Noite
Despertei
Avistando-Te
À beira da janela.

Lá fora
O vento e a chuva
Enroscados
Tentavam corromper as paredes
Para Te reivindicar.

Giraste na minha direção
E Tudo aquilo
Que o vento e a chuva
Cogitavam
Estava grafado no meu rosto
Imerso na escuridão.

Sem Meias Medidas


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Rabisco



«Pictórico», nunca foi uma palavra que cogitei para definir algo sobre mim. A Criatividade sempre se manifestou de outras formas… fosse através da eleição de uma determinada especiaria para elevar um prato acima das suas expectativas culinárias; ou fosse através da triagem de certas palavras numa ligação telefónica, para lhe arrancar uma gargalhada genuína apesar de apartados por um continente e dois oceanos. Até quando pegava em pincéis na aula de desenho, detinha-me mais fascinado pela trapalhada de cores pollockiescas que havia deixado nas mãos, do que propriamente pelo esboço que a tela ostentava.

Contudo, ali especado de mão a latejar… observando-a empinada e exposta… sentia-me envaidecido pela beleza daquelas pinceladas rubras. Ela respirava profundamente, mordia o lábio, cerrava os olhos e repetia o ciclo… retomando-o de todas as vezes com o subtil alçar daquele rabo. Eu… limitava-me a roçar os meus lábios um no outro, deslizando a língua entre os mesmos, considerando o quadro da situação. Deslizava a ponta dos meus dedos por aqueles vales e riachos. Os vergões eram violáceos, a pele pintalgada ganhava relevos encarniçados. Havia inclusivamente uma tonalidade dourada através do rosado e a iridescência distraía-me. Era inevitável admirar o meu trabalho. Admirá-La! Era inevitável sentir-me capaz de ombrear com os colossos… Picasso, e o seu desrespeito pelo formalismo… Dalí, e o seu elegante distanciamento da normalidade… Van Gogh e a sua graciosa loucura. Eles tinham telas… eu tenho a sua Pele!

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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Eixo de Simetria



Se fores uma Tela, serei a Tinta. Não hesites em criar um inverso, pois a adição do meu reflexo revelar-Te-á um Universo. Simbiose é um termo que acarreta conotações desagradáveis… tal como Codependência. O conceito de igualdade tem o hábito de reduzir duas pessoas numa fastidiosa massa homogénea. O desejo assenta no desconhecido. Logo, sem a textura da imprevisibilidade retalha-se a originalidade identitária. Não começamos iguais, mas começamos com escolhas iguais… oportunidades iguais. Nunca sejas igual. Sê simétrica! Quando Te falar, ouve. Quando Te amarrar, deixa-Te prender e apreender. Quando intumescer, fica permeável… cria espaço para Te plenificar. Permite que esse tecido de simetria Te prove como a sujeição se aparta da noção de desconexão. Elos serão adicionados pelos torvelinhos quotidianos. Haverá sempre uma razão para a Tua busca pela rendição. Desequilíbrios serão revertidos. Nos momentos que Te propiciarem exaustão, serás acolchoada pela minha intervenção. Escorreremos confiança e confidência, numa confluência de intimidade que irá lustrar o Farol, varrendo todas as teias de procrastinação e falta de convicção. Preciso de iluminar para me sentir iluminado. Chama-lhe Perseguição de uma Musa, de uma Razão, de um Propósito… ou de uma Testemunha… pois afinal de contas, uma Plateia será sempre um vaso para o Artista tentar verter a Excelência da sua Essência.

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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O Resto do Rasto



Como permear um Lugar? Como impregnar a nossa presença na concisão de quatro paredes, desafiando os limites do confinamento? Como fazer com que depois de me teres, Te seja completamente impossível voltar ao tempo em que não me tinhas?

Será sempre o encantamento induzido por lembretes numa plataforma sensorial. O cheiro nos lençóis, cujos vincos narram autênticas epopeias. O ponto em comum entre uma barba por desfazer e um sopro. A marca que o metal das algemas deixou na mesa-de-cabeceira. O arranhão das unhas na haste da cama de dossel. O fantasma de um perfume, que se esconde pelos recantos do quarto, pronto para uma emboscada. Uma panóplia de máquinas do tempo, operacionais e céleres na ativação de atos que sobrescrevem a associação gerada por crepúsculos esfaimados. Sou um Espectro no Teu quarto prosaico e existencial, aguardando pacientemente pelo momento em que Te farei estremecer quando Te trespassar.

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terça-feira, 7 de novembro de 2017

Totem



O Sexo representa Libertação.
Sim, a frase é uma lapalissada. Mas há alturas em que se torna catártico, em que resulta numa enorme purgação que condensa cada partícula de frustração e raiva na ponta da sua arma, como se carregasse o tambor de um revólver e disparasse contra qualquer alvo de emotividade indesejável. Exaltador. O tipo de experiência que o deixa escoado e vazio… deliciosamente gasto. Um contraste com outros momentos, nos quais a ferramenta não destruía. Esculpia! A lança transformada em cinzel. Onde cada estocada não libertava, mas compunha. Refinava! Todavia, o instante impunha uma Cena bélica em detrimento de uma sessão de terapia. Um confronto do qual sairia com tantas nódoas negras como Ela. Dolorosas, mas alicerces incontornáveis de um monumento de prazer.

É-lhe sempre divertido constatar a sensação de estocar carvão com a ponta do seu falo. Como se tentasse, porventura com futilidade, lapidar um diamante. É aquela altura em que a relevância dos traços deificados de uma Bela Criatura é suprimida pela avalanche de poder e intimidação, que resume a proeminência da circunstância no pistão entre as suas coxas. É aquela altura em que ele não fala. Neolítico. Uma espécie primitiva que aparenta maior preocupação com a sobrevivência do que com conceitos abstratos como “diversão” ou “satisfação”. Uma regressão consentida em prol da investida da Identidade, com um raio de malícia trovejando acima das presas salivantes. Ele desconhece como Ela o encara nestas alturas. Não tem tempo para conjeturas, embaraços ou culpas. Contudo, Ela não apresenta vestígios de queixume. A sonoridade que verte pela sua boca lograria encher uma banheira de gemidos comprazidos, que serviriam de infusão para os sons guturais que expressam a mitigação do desassossego que possa borbulhar à superfície da sua essência primordial.

Sem Meias Medidas


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Aura da Aurora



A forma como eu pairava sob a porta do quarto assemelhava-me a um gangster dos filmes da década de 50. Contudo, a iluminação não era consonante. Era manhã e os filmes de então aparentavam olvidar as manhãs, pois tudo girava em torno de negócios de meia-noite e ressacas de final de tarde. Ver-Te delineada pela alvorada dissipa qualquer ressaca e orvalha-me de paixão. Naquele instante, espremeria um deserto para dentro de uma ampulheta.

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sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Padrão do Descobrimento



A mensagem aguardava por mim quando desliguei a ignição e cessei o assalto sonoro que me havia acompanhado até casa. Senti-me emboscado, mas a boa disposição deu consistência à naturalidade do sorriso. Enviar uma sms tão cedo era um passo desataviado. Tamanho desassossego da sua parte conferia-me poder, mas talvez o propósito dEla fosse justamente esse.
Deixei as palavras assentarem. Muni-me de tempo para pensar e construir uma resposta apropriada. A sua mensagem revelava um pedido educado, apesar do conteúdo não ser assim tão polido. Ou pelo menos, aquilo que era inferido. Ela possuía uma aura de inocência que me acirrava, mas estava longe de ser ingénua. Reli a mensagem enquanto saía da garagem. A contagem cifrava-se em quatro quando inseri a chave na fechadura, à qual acrescentei mais duas enquanto selecionava a banda sonora que iria acompanhar as minhas deambulações pelas lides caseiras. Apenas me restava aquiescer ao seu pedido, concordar e aguardar. Todavia, existia um patético convencionalismo no canto da minha mente, no limiar da minha consciência, que me fazia sentir rapinador pelo aproveitamento de uma rapariga seis anos mais nova. Mas era Ela… a lei não estava a ser infringida e a rede de segurança moral teria de ser evidentemente suprimida. Então respondi. Disse-lhe que se realmente desejasse vir ter comigo, ao meu apartamento, presenciando-me pela segunda vez no mesmo dia, iria ter de existir um desfecho bem específico e óbvio. A sua resposta demorou sensivelmente trinta segundos e eu pude, claramente, escutar a sua voz enquanto lia as palavras. Uma simples afirmação. Sim, Ela sabia. Sim, Ela entendia. Sim, Ela ainda desejava vir. Sim, Ela faria tudo o que lhe fosse solicitado.

Vesti prontamente o casaco e fui aguardá-la à entrada do prédio. Avistei-A ligeiramente inebriada, quando se livrou dos três degraus que nos separavam, vacilando nos seus saltos antes de me abraçar. O descaramento havia sumido ao clamar silenciosamente por alguma espécie de ajuda para algo tão simples como caminhar. Ali, naquele instante, enamorei-me. A genuinidade e a candura sempre me desarmaram. Firmei-A pela cintura e deixei que a noite nos vestisse enquanto A encaminhava para o meu lar. Trocamos um beijo por um segundo. Foi perfeitamente visível como Ela pretendia prolongar aquele beijo por mais um pouco, adiando as eminências numa vã tentativa para se salvar de si própria. Não lhe concedi esse ensejo, pois não só desejava preservar o seu ímpeto… como desejava erguer-lhe um Monumento. No final de outro pequeno lanço de escadas que nos aproximava do elevador voltou a tropeçar, desculpando-se a ninguém em particular. Voltei a sentir aquela atração repleta de veemência. Beijei-A ao entrar no elevador. Deixei que as minhas mãos encontrassem o seu próprio rumo e apoderei-me de um punhado de nádegas. Ela soluçou, numa expressão delatora que se encontrava a meio caminho entre o embaraço e a felicidade, mordendo o lábio inferior como resposta. Chegados à minha porta, pausei.

«Última oportunidade…»
«Está tudo bem.»

Abanei a cabeça em desaprovação.

«Não! Quero escutar uma afirmação perentória daquilo que desejas. Quero que saibas o que Te aguarda quando atravessarmos esta porta.»
«Eu sei! Eu desejo-o!»

Ela mentia. Pelo menos na primeira parte da resposta. Não tinha noção do que lhe faria. Mas essa era talvez a principal razão pela qual tremia e tropeçava. Não o álcool partilhado horas antes. Essa era a razão pela qual se encontrava ali, comigo, abraçando o desconhecido, desbravando algo novo. Sorri e beijei a ponta do seu nariz. Ao abrir a porta, escutava-se a voz da PJ Harvey como anfitriã no meio da escuridão, seduzindo-nos para o interior daquele refúgio como o canto de uma sereia.
Tomei a sua mão e olhei nos seus olhos:


«Vamos lá averiguar quais as formas que Te revelam na escuridão...»

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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

reVESTE



Contemplar uma Mulher a vestir-se é algo deliciosamente caricatural. A tentação para comparações com o “Feiticeiro de Oz” aparenta ser descabida, mas assenta na alusão às cortinas que se descerram para expor a real identidade da personagem responsável pela magia. Eu deambulava pelo quarto, rodopiando vinho tinto num copo e fingindo ser parte de uma conversa que não escutava. Jamais tombarei na vulgaridade de apenas certificar uma Mulher como pináculo de Beleza sem produção, mas os adereços, a maquilhagem, os perfumes e as jóias servem apenas para ofuscar em vez de enaltecer. Uns bons Saltos e umas boas meias completam bem o ramalhete… e quanto muito, um bom cinto de ligas… pois um soutien jamais representará uma peça de sedução indispensável. Uns belos seios não merecem, nem necessitam de um disfarce como objeto de sedução ou provocação. Umas belas mamas já representam por si só um elemento sedutor e provocador… e raro(!), diga-se em abono da verdade.

Sempre considerei que ser desonesto com uma Mulher, traduziria desonestidade comigo próprio. Portanto, naquele instante, concentrava-me na transformação. Aquele momento que se encontra a meio caminho entre a Mulher que era e o objeto de Desejo que deseja ser. Suponho que essa é a razão pela qual gosto de vestir uma Mulher… para perverter a minúcia da aparente inocência. Para amplificar a sexualidade do momento. Degustando a desconstrução… a forma como batem em retirada de si próprias e se enleiam no lado animal, na graça felina do exagero presente no ornamento.

A luz da cozinha era incaracterística. Demasiado estéril. Desprovida do calor da luz do quarto. Ela entrou toda aprumada. Pavoneando-se. Cintilava. Cada centímetro da sua pele estava regado com refulgência. Encontrava-se em exposição, com tudo espremido nos devidos lugares. Não consegui evitar um sorriso e escoar o resto da bebida que se encontrava no copo.

«Estás Divinal... És Divina!»

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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Dentro



Não saberás
Nem lograrás saber
Aquilo que desejo em Ti.
Tudo se encontrará enleado
Revolto e esperneado
Dentro de Ti.

Portanto
E por Tanto,
Não me questiones.
Isto é entre mim
E a Tua pele,
Entre mim
E o labirinto
Dentro de Ti.

Escolherei um caminho
Tomarei passos…
Morder-Te-ei
Sovar-Te-ei
Amarrar-Te-ei
Beijar-Te-ei…
De alguma forma
Acharei um centro
Acharei um fim
Acharei um início
Dentro de Ti.

Sem Meias Medidas


terça-feira, 31 de outubro de 2017

Vir para Ver



Independentemente
Da velocidade da Luz
Foi a Escuridão
Que chegou primeiro.
Independentemente
Do quão revelador
É o Dia
Vem
Ter comigo à Noite
E ver-Te-ás
Nitidamente
Ver-me-ás
Finalmente.

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sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Vestigial



Vim-me como se estivesse a contemplar um pôr-do-sol em Angkor Wat… varrido por uma sobrecarga de êxtase. Retirei-me de dentro dEla e escutei-A balbuciar um gemido… ao mesmo tempo satisfeita e frustrada. Estava demasiado exausta para voltar a foder, mas tal não extinguia o desejo que fervilhava dentro dEla. Plantei um beijo na sua testa e libertei-A de alguns nós, o suficiente para livrá-la da ferroada da corda.
E então deixei-A.
Para limpeza, para reflexão… pouco importava. Saí do quarto para lhe conceder o espaço que necessitaria para expandir a mente, depois de a haver implodido. Espreitei-A rolar na cama e inspirar. Revirada pela bênção do momento, com a névoa dissipando paulatinamente em direção ao teto. Moveu os punhos, um contra o outro, ajustando um pouco mais de folga relativamente à corda. Podia libertar-se, mas preferiu manter a noção de presença, apesar de sabê-la residual. Sons ecoavam pelo apartamento, alertando-A para a existência de um mundo além dEla, além do quarto, além do corredor, além do edifício. Os subsistemas do seu cérebro reiniciavam-se. Alimentavam-na com informação, enquanto saía de uma espécie de criostase e se aclimatava ao Novo Mundo.

A hipérbole derreteu em virtude da satisfação, quando descendeu do glorioso zénite.
Regressei ao quarto, envergando apenas umas calças de fato de treino pretas, e observei-A a libertar-se das amarras. Sorri e Ela retribuiu o sorriso.

«Ainda comigo?», murmurei, exultando interiormente ao vê-la dilatar o sorriso.
«Hm Hm. E tu, ainda comigo?», questionou enquanto se espreguiçava.
«Sempre!»

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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Manhã Enrubescida



Para um cético, há uma apreensão perpétua sobre a associação de pequenos detalhes extraordinários a superstições do folclore popular, em detrimento da explicação científica. Ele passará uma grande parte da sua existência reforçando as suas crenças, examinando o alicerce de tais estruturas e assegurando-se da solidez do seu solo, pois jamais estabeleceria domicílio na instabilidade de um Lar à beira-mar. Pobre coitado! Jamais entenderá como a Grande Beleza é indomável e ameaçadora… mas profundamente compensatória.

A Luz sangrava pelo chão do quarto antes de subir em espiral pelas paredes, mergulhando-o numa sinistra névoa carmesim. A manhã havia chegado antes de mim e no instante em que abri ligeiramente os olhos, o quarto encontrava-se subjugado pela Luz. A noite havia sido tão agitada e atulhada por eventos que o meu foco encontrava-se cingido a uma cama. Não se lavaram dentes, não se fecharam cortinas, nem se retiraram todas as peças de roupa antes de convocarmos o edredão como terceiro elemento do ménage. Ela ainda desempenhava o papel de Bela Adormecida, com uma respiração cadenciada que a balizava como causa perdida durante mais umas dezenas de minutos. Não tive coragem, nem desplante para acordá-la. Aliás, quase nem tinha coragem suficiente para me arrastar em direção à consciência, fugindo do aconchego do torpor. Deslizei do edredão com relutância e estaquei. O frio é sempre o primeiro projétil desferido contra a nudez, deixando o meu membro vulnerável e estremecido… aquele habitual queixoso empertigado de todas as manhãs, que havia sido completamente ignorado por mim naquele momento. A Luz intrigava-me e a minha curiosidade sempre se antecipou ao meu conforto. Era em virtude disso que me encontrava ali, desnudo a esfregar os olhos. Era em virtude disso que Ela se encontrava na minha cama, em vez de outra Mulher que estivesse mais interessada em bebés do que em orgasmos.

Espequei à beira da janela e apesar do ocre matinal encontrava-me algo esbatido. Era uma figura pálida contra uma onda escarlate. Era como se estivesse em busca de uma simbiose com a manhã, desprendendo-me lentamente do abraço da noite. Lá fora, a terra estava banhada em sangue. O verde da relva do jardim batalhava com a enxurrada de Luz avermelhada. O céu era devastador. Espreitei acima do meu ombro e contemplei como a Luz se fundia com o seu cabelo ruivo, tornando-A bem mais fogosa. Era quase sobrenatural. E ali me quedei… delineado pelo céu ruborizado de forma insólita, até que o Sol dissipou o drama e a paleta de cores voltou ao normal, escoando o vermelho soberano. Estava na hora de arder no fogo remanescente que Ela possuía.

Sem Meias Medidas


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Ancorada



Toda aquela situação propiciava-lhe uma sensação de leveza… o colchão debaixo do seu corpo parecia ter sido substituído por mil e uma mãos… cada uma elevando-a para bem longe do chão. Ela sentia-se na iminência de levitar a qualquer instante… como se necessitasse de cordas… amarras… ou apenas da minha atenção… para ser ancorada na Epopeia narrada pelos vincos daqueles lençóis.

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terça-feira, 24 de outubro de 2017

Ipsis Litteris



Contemplava o seu rosto enquanto lia…
Espiava aquele dedo
Roçando pelas páginas
Beliscando as extremidades
Enquanto as folheava.

Contemplava o seu rosto enquanto lia…
Ela espiava os meus dedos
Roçando pelas páginas
Beliscando as extremidades
Enquanto A folheava.

A sua pele era o meu pergaminho
E Ela,
Uma Obra-Prima Literária.

Sem Meias Medidas


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Tembo



Ela estava de joelhos e os meus encontravam-se na linha do seu peito. Olhava-me em contrapicado, reclinada sobre os seus pés, com os calcanhares acomodando as suas nádegas. A visão era majestosa, pois a Vulnerabilidade é definitivamente uma das minhas paisagens preferidas. A minha mão deambulava pela sua face, servindo-me da ponta dos meus dedos como balas.

«Tudo aquilo que faço…»

Pausei. Recuei a mão. Descrevi um arco. E desabei-a delicadamente no seu rosto. Uma sombra esbatida de uma bofetada erótica. Mesmo assim, retesou e gemeu… expressando com pantomima a expectativa sem desenlace.

«Tudo aquilo que faço, explora o nimbo da Vulnerabilidade. Expões-Te para mim e eu poderia deixar de brandir a faca, para a investir a qualquer instante. O facto de não o fazer é a razão que Te conserva à ilharga… o facto de o poder fazer é a razão pela qual Te contorces e suspiras.»

Noutros lábios, noutra altura, a solenidade hiperbólica das palavras teria revirado os seus olhos com desdém. Mas ali, comigo, naquele instante, cada palavra era capital. Sorriu. Permaneceu quieta. Modesta. Sem chocalhar aquela armadura que havia fabricado à base de humor cáustico, declarações sarcásticas e displicência refinada numa simulação de indiferença.

«Levanta-Te! Vamos dar uma volta.»

Invoquei-A com uma nova palmada na sua face e foi percetível a debandada de questões que se atropelavam para chegar primeiro aos seus lábios. A mais curta espremeu-se para encabeçar a fila:

«Porquê?»

Fingi perplexidade, sugerindo que «Onde?» era a única dúvida real, pois se explicasse o porquê não necessitaria do fator surpresa de um onde. Partilhámos um beijo, coloquei uma mão na sua nádega e encaminhei-A para o exterior daquele refúgio idílico alentejano. A Vulnerabilidade era acentuada pela imensidão do Alentejo e pela luz crepuscular que tracejava as linhas do seu corpo desnudo. O calor apenas se fazia representar pelas suas meias compridas… essa peça de vestuário que deifica qualquer Mulher, tal como longas luvas pretas possuem potencial para conferir uma aura de Vénus de Milo. Sentia-se exposta, mas a forma como a olhava maravilhado transformava aquela planície instrospectiva num país de maravilhas.

«Perguntaste-me porquê. Como Te sentes?»

Sorriu sedutoramente e empertigou-se.
Sentia-se Invencível!